Algumas Palavras

barracordel

Deus, O Homem e a Origem da Falta d’água no Sertão
Autor: Adriano Santori
Dizem que Nosso Senhor
Na feitura do Universo,
Abriu seu grande bornal
Pegou um galho disperso
Riscou um mote sem tema
Na Terra fez um poema,
“Caatinga”, o melhor verso.

Fez tudo aqui direitinho
Cada ser com sua missão…
Cardeiro que flora na seca,
Tatu-peba, arador do chão.
Papagaio, ema, besouro,
Concriz, casaca de couro,
Cobra, timbu e cancão.

Criou centenas de bichos,
Onças no mato a correr,
Carcarás voando no céu…
Rolinhas para se entreter…
Traíras nadando em riacho,
Catolé carregado de cacho,
Umbu para gente comer.

Craibeira, oiti, jurema,
Pau d’arco, ingá, marmeleiro,
Que se sentindo orvalhado
Inunda o mundo de cheiro…
Xique-xique, ipê, caroá
Jucá , Cumaru, trapiá,
Angico, cajá e pereiro.

Deus aprontou tudo e disse:
“Deixo só um mandamento.
Enquanto existir a caatinga
Jamais haverá sofrimento.
Por isso, quem inventar
De um pé de pau derrubar
Sai fora do meu testamento!”

Todos eram respeitadores
Daquela ordem celestial,
Todos, exceto um bicho
Que não se achava animal…
Espécie que fugiu do plano
Chamado de “ser humano”
Mas era um ser anormal.

Diferente porque tinha
Tendência a ganancioso,
Escravizava o semelhante,
Por dinheiro era ansioso…
Mal-caráter  de mão cheia,
Falador  da vida alheia,
Atrevido e preguiçoso.

Não é que o bicho-homem
Logo cedo caiu na besteira
De dizer: “isso é conversa,
Ou deve ser brincadeira…
Acordei desmantelado,
Invento já um machado,
Corto a caatinga inteira.

O caboré disse ao homem:
“Não cometa este pecado!
Não ouviu a ordem de cima?
Você quer é ser castigado.
O homem saiu debochando
Todo trombudo, se achando
O dono daquele reinado.

Primeiro pegou uma pedra
Base para o seu invento,
Esfregou nela uma outra
Até lhe dar polimento…
E fez da pedra polida
Uma ceifadora de vida,
O seu mortal instrumento.

Correu para a mata virgem
Fez uma macabra dança,
Qualquer pé de pau era alvo
Daquela horrível matança.
De cima, Deus triste dizia
“Vou esperar, pois um dia
Esse malvado se cansa.”

O Criador piscou o olho,
Nos tempos da eternidade,
Quando abriu, ficou mudo,
Diante da barbaridade…
Da mata que ali existia
O bicho-homem já havia
Cortado mais da metade.

Deus perguntou o porquê
Dessa atitude impensada…
O homem lhe respondeu:
“Planta lá presta para nada!
Vou deixar a Terra vazia,
Até o amanhecer do dia
A poda estará terminada!”

Deus falou: “Está certo,
Já que você pensa assim…
Mas não vá se arrepender,
Por toda a culpa em mim.
Quem faz do mal sua sina
Paga  duro na lei divina:
O resultado se vê no fim.

O homem não entendia
Como se dava essa relação:
A água subia às alturas
Através da evaporação…
Sem árvore nada ocorria,
Sem mato a chuva caía
Mas não segurava no chão.

Foi por isso que o Criador,
Tão cuidadoso e prudente,
Encheu de plantas o aceiro
Do rio até a nascente.
Nas engrenagens da vida
A mãe-água ficava retida
Até em terra tão quente.

O homem saiu destruindo
A caatinga até se cansar…
Parou quando sentiu sede,
Foi ao açude se refrescar…
Era um dia de domingo,
Água não havia um pingo,
Somente a seca por lá!

Correu ao riacho e também
A água tinha acabado…
O caboré do ninho gritou:
“Bem feito, cabra abestado!
Se tivesse mais sabedoria
A ação que fez desfazia
E vivia despreocupado.”

Com pouco tempo o sertão
Se sentiu um tanto mudado…
Asa Branca voou pelo mundo,
Cururu escondido e calado…
Mocó vivendo de sola
Siriema pedindo esmola
Esperando na cuia um bocado.

O homem gritou arrependido
“Meu Deus do céu, me acuda!
O Senhor não está percebendo
Que eu careço tanto de ajuda?
Já que é o Senhor do Saber
Porque não pega o poder
E acaba esta seca aguda?

Deus lhe falou duramente:
“Caboclo, agora é tarde!
Você destruiu o que fiz
E fica aí fazendo alarde?
Aprecio quem tem respeito,
Mas comigo não agiu direito,
No espinhaço a chibata arde.”

“Entretanto se um dia você
Desfizer toda essa maldade,
Refaço o sertão como era,
Ainda aumento uma metade…
Pronuncio  aqui em bom tom
Outra vez saberá o que é bom:
Com água, feijão e felicidade.”

O homem saiu cabisbaixo
Deu início a semeadura,
E ainda hoje não acabou
Aquela tarefa , mas jura
Ser Deus é o grande vilão,
Que a seca criou no sertão…
Como uma grande censura.

Sendo assim, você que me lê
Dê uma ajuda a esse cristão,
Semeie no solo uma semente,
Plante uma árvore no oitão.
Foi Nosso Senhor que mandou
E como também  ordenou
O bom Padim Cíço Romão!

* * *

A GRANDE PELEJA DE LAMPIÃO
CONTRA A BESTA FERA DO UÁI FÁI

Autor: Adriano Santori
Muitos acham que Virgulino
Perdeu a vida na Grota,
Mas escapou do massacre
Seguindo uma sábia rota…
E ainda vive pelo sertão
Ativo, fazendo chacota.

Digo isso porque um dia
Vi cara a cara o Capitão…
Num arrasta-pé em Sergipe
Pelejando com um Cão:
A Besta Fera do Uái Fái,
Conto aqui esta questão.

Lampião chegou no forró,
Parou e ficou cismado…
Parecia muito estranho
O salão tão desanimado…
Não se dançava ou sorria,
Algo ali estava errado.

Percebeu que os matutos
Seguravam em sua mão
Um objeto esquisito
Que emitia um clarão;
Que dominava a todos,
Menos nosso Capitão.

“Mas que molesta é isso?”
Perguntou a um menino,
O moleque lhe respondeu
Num tom de voz muito fino:
É um “aparelho celular”…
Se encabulou Virgulino!

“Por ele gente conversa,
Manda foto, reclamação…
E se passa o tempo todo
Com o objeto na mão,
Falando da vida alheia…
Gastando a nossa em vão.”

O cangaceiro enfurecido
Com tanta falta de senso…
Puxou seu longo punhal
Naquele momento tenso
Bateu com tanta firmeza
Que o celular ficou penso!

A terra se estremeceu…
O candeeiro deu um pipoco
O chão rachou-se na hora
Saiu fumaça de um toco
E a Besta Fera do Uái Fái
Surgiu de dentro do oco!

A Besta Fera do Uái Fái
É um demônio oriundo
Das novas tecnologias
Nascida do lodo imundo,
Mandada pelo Satanás
Para acabar com o mundo.

Sua cabeça emite raios
Que paralisam o vivente,
E é pelo celular que ele
Devora o juízo da gente…
Deixando o povo lesado,
Apeado e inconsciente!

Lampião disse para fera:
“Eu vim aqui para a farra,
Espie aqui meu punhal,
Me mostre aí sua garra…
Que hoje eu danço forró
Mesmo que seja na marra!”

A Besta Fera do Uái Fái
Deu uma risada medonha…
Disse: “Cabra, estás doido
Ou tens fumado maconha?
Suma daqui na carreira
Antes que passe vergonha!”

Mas Lampião revoltado
Meteu bala em resposta.
O monstro se acocorou,
O diabo fez sua aposta…
O tiro entrou pelo fundo
Subiu catinga de bosta.

A Besta Fera se levantou
Agarrou-se com o Capitão,
Que se vendo encurralado
Rezou alto uma oração
Com muita fé e clemência
Ao Padre Cícero Romão.

O céu se abriu em luz,
De lá saiu um pé gigante,
Que usava uma alpercata
Toda em ouro, cintilante
E esmagou a Besta Fera
Naquele sagrado instante.

Em troca desse milagre
Me jurou o Capitão:
No dia, que reencontrar
Um celular no sertão
Matuto apanha de vara
Para aprender a lição!

* * *

“UM CORDELZINHO TEMEROSO”
Autor: Adriano Santori

Ainda bem que este ano
Já está perto do fim…
Não sei o que moléstia
Jogaram em cima de mim
Só apoiei quem não presta
E só pratiquei coisa ruim.

Defendi político bandido,
Plantei a semente do mal,
Fiz a “dancinha macabra”
Que foi um sucesso total
E até um golpe de estado
Aplicaram com o meu aval.

Mas aqui faz, aqui paga!
Olhe o que me aconteceu:
Estava saindo pra casa
Vindo do Bar de Irineu
Quando ouvi uma risada
E o Diabo me apareceu!

Senti o filete de merda
Escorrendo do meu calção…
O Diabo disse: Se ajeite
Matuto velho cagão
Que amanhã eu boto toda
Minha cara na televisão!

Chamei todos os santos
Mas ninguém me atendia…
O Diabo mangando de mim
Enquanto eu só me tremia
E foi embora dizendo
Me encontrar outro dia.

Era véspera de Natal…
Uma época agoniada
Liguei a TV para ver
Se dava alguma risada…
Porém cai de moleza
Direto na emboscada!

A televisão deu um pipoco
Ouvi de novo a voz do cão
Dizendo assim: Boa Noite,
Meu caríssimo cidadão,
E por estar me assistindo
Lhe agradeço de antemão.

Espiei assim para o cão,
Achei-o bem diferente…
Não é que ele era cagado
O interino presidente!
Que num português polido
Foi falando corretamente.

“Oi, amigos do Brasil
Só trago notícia boa.
Um projeto perfeito
Para afundar a canoa
Do povo pobre sofrido
Sem que a mim nada doa!”

“Já coloquei na geladeira
O pacote de investimento,
Saúde, educação e lazer,
Agora é esquecimento…
O negócio é trabalhar duro
Como se fosse um jumento!”

“Quarenta horas por dia
É o novo limite de horário,
Mas isso não é para o rico,
Só para quem for operário,
Sem ter direito à férias
Ou décimo-terceiro salário.”

“Mexer na previdência
Está também nos meus planos,
A Lei está sendo mudada,
Aqui por debaixo dos panos
E matuto só larga a enxada
Depois dos duzentos anos!”

“Mas pode ficar tranquilo,
Isso tudo é para o seu bem…
Por hoje eu encerro aqui
Só volto ano que vem
Se gostou compartilhe,
Se não gostou diga “Amém”!

Dezembro de 2016.

A Viagem de João Sabido ao Reino da Falácia
AUTOR: Adriano Santori

Conta-se que no sertão,
Isso muito tempo atrás,
Existia um grande reino
Diferente até demais
Dos atuais conhecidos,
A treze dias de Currais.

Para lá foi João Sabido,
Fugindo da carestia…
Ficou todo admirado
Com tanta coisa que via.
Se fosse competição
São Saruê perderia.

Era um mundo reluzente,
Sinônimo de perfeição.
Suas ruas organizadas,
De ouro pintado o chão.
Onde não havia doentes
Todo seu povo era são.

Pelo menos era isso
Que João havia ouvido.
Contudo, lá na Falácia
O conceito era  invertido,
Coisa tida por certa
Lá não teria sentido.

O mais importante era
Puramente aparentar.
Comprar um carro bonito
Sem saber como pagar.
Ir à igreja todo domingo
Mesmo sem saber rezar.

Ter um cargo pomposo
Sem nunca ter estudado,
Se dizer amigo do povo
Sem nunca ter ajudado.
Vender gato por lebre,
Redondo como quadrado.

Se intitular sábio poeta
Sem  ter feito uma rima,
Nem conhecer Luís de Camões
E veja, ainda por cima,
Ter voz grossa de machão
Mas se vestir de menina.

Se dizer moça de família,
Vestida de frescurite,
Entretanto dava para João,
Jumentão,  Mané de Edite…
Sair dizendo: “Sou cabaço!”
E ainda ter quem acredite.

Já as senhoras casadas
Quando na sociedade…
Se trajavam como beatas,
Escondendo a falsidade.
Mas depois iam dar glória
À Santa Libertinagem.

O marido, quando na frente
De uma turma ou doutor
Se mostrava da família
Ser veemente defensor.
Isso até ser hora de ir
Ao Cabaré de Arnor.

Quem se passava por simples
Esbanjava a maior riqueza,
Mas fazia questão de dizer:
Ser pobre é que é beleza…
Tinha a pele da humildade
Dentro a alma da avareza.

A educação da Falácia
Até que era engraçada,
O professor ensinava,
O aluno aprendia nada
E se formava engenheiro
Sem nem saber tabuada.

E ai daquele professor
Que reprovasse um cristão,
Era linchado na praça
Pela própria população.
A Estado não consentia
Gente educada não!

Trabalhador na Falácia
Era outro caso hilário
Quanto menos se fazia
Maior seria o salário.
Vereador era rico
Suando só meio horário.

Já se fosse agricultor,
Um peão ou um lixeiro,
Trabalhava dia e noite
De janeiro a janeiro,
E morria liso e louco
Sem ver a cor do dinheiro.

O sistema de saúde
Era como a loteria.
Se jogava 12 números
A cada hora do dia…
Se o doente acertasse
O médico lhe atenderia.

Outra coisa na Falácia
Que João achou diferente
Era como aquele povo
Escolhia o seu regente
Se o cabra fosse ladrão
Ganhava diretamente.

Nem se fazia eleição,
Para coisa não ficar feia,
Uma equipe se reunia
Visitava uma cadeia
E daí tiravam um rei
Para uma era e meia.

Lembrando que os bandidos
Não eram como os daqui não.
Usavam paletó,  gravata
De cor caqui ou azul paixão…
E só era preso quem um dia
Havia roubado um trilhão.

Ou pela burocracia
Tirado dinheiro do Estado,
Matado criança de fome,
Uma verba ter desviado.
Ou entrado na política
E não querer o errado.

Porém, como na Falácia
O que valia era a imagem,
Era só andar bem vistoso,
Que não se teria margem
Para suspeitar ser o sujeito
Um chefe da bandidagem.

Andar falando de Deus,
Fazendo as artes do cão…
Afirmar que sabe da Bíblia
Sem nunca ter lido não.
Nunca o pão ter dividido
E ainda dizer que é cristão.

Não pense você que só
Os ricos agiam assim…
O pobre dizia ser rico
Mesmo comendo capim.
Sem saúde ou morada,
Ou cova na hora do fim.

Porém, isso não importava,
Faziam festa todo dia…
Para dançar era melhor
Ter a barriga bem vazia,
Colada no espinhaço:
A fome não existia.

O João que era sabido
Cismou da má situação
Pegou a mala e arribou.
“Aqui eu não fico não!
Prefiro ser homem livre
Que viver na alienação.”

Eu que também pensava
Naquele reino ir morar
Confesso que desisti,
Vou em meu canto ficar…
Pedindo de coração
Que esse aqui, o meu chão
Nunca se iguale ao de lá.

PELAS BARBAS DE DIAMAT, ou “O DIA QUE EU ENTREI NA CAVERNA DO DRAGÃO E NÃO SAÍ”

Quando eu era menino
Passava na televisão
Um desenho intitulado:
A Caverna do Dragão,
Onde uma turma insistia
Porém, jamais conseguia
Sair da caverna não.

E pelejava noite e dia,
Contra um tal Vingador,
Que voava num cavalo
Preto que só na cor.
Não gostava de adorno
E era só meio corno,
Só um chifre a mulher botou.
O tempo foi se passando,
Eu perdendo a inocência,
Já era um moço donzelo,
Burro e sem paciência.
Quando um dia então
Surgiu dum pote um anão
Desafiando a ciência.Ele falava arrastado
Usava um longo vestido,
Até pensei a princípio
Que ele fosse invertido…
Nossa Senhora dos Lagos!
Era o Mestre dos Magos.
Não tinha reconhecido.Olhou para mim e disse:
“Eu vim lhe dar uma pista
Para que você se liberte
Dessa caverna malquista:
Retorne a realidade
Do seu mundo de verdade,
Antes que dê na vista.”Nisso um gato pulou,
Corvina deu um latido,
Corri no muro para ver
O que tinha acontecido,
Então me abestalhei,
E na hora que eu voltei
O Mestre havia sumido.“Ah, seu fi duma égua!”
Gritei um tanto zangado.
Depois deitei numa rede
Com essa estória encucado…
Quando me veio uma luz
Amarela que só cuscuz
Do que ele havia falado.Veio a mente essa gente
Dessas redes sociais
Que fica dia e mais dia
Sem falar nem com os pais,
Conversando pelos dedos
Falando de mil enredos
Pelas vias virtuais.Acho que eles não bebem,
Tão pouco se alimentam,
Se cagam é um mistério,
Não mijam porque não tentam…
A vida se passa na tela
Como uma apática novela,
Que os autores lamentam.Estudante não estuda,
Trabalhador não trabalha,
Doutor não faz mais consulta
E o marombeiro não malha.
É um tiroteio sangrento
Em prol do amofinamento…
Quem vencerá a batalha?

Essa caverna é tão grande,
Tão profunda e escura
Que quem cai viciado
Dificilmente acha cura…
Se me enterto e não paro,
Passo a noite em claro
Como coruja madura.

Esta gaiola virtual
Se tornara minha prisão,
Atrapalhando a leitura,
O estudo e a profissão.
Pareço uma moça feia
Espiando a vida alheia
E deixando a minha em vão.

Lembro da turma na praça
Proseando pessoalmente…
Namoro, canto e risada,
Gente falando com gente…
Mas isso tudo é passado,
Eita mundo desmantelado!
Acabo então meu repente.

Só deixo aqui um recado
A esse mestre tão feio:
Deixe anotado no pote
Seu endereço de email,
Do Orkut e do Facebook,
Ou mando o incrível Huck,
Partir o senhor no meio!
* * *

Sexo pela Internet

Derna que Meu Padim
Criou a bendita Internet,
Hi Fi, Cabo, Wireless,
Camisinha sabor chiclete,
Sexo virtual é moda
No Norte, Sul e Sudeste.

Desse jeito é possível
Consumar a relação,
Seja estando em Cabrobó
Ou em Tóquio, no Japão.
Misturar negra judia,
Com galego alemão.

E transa pobre com rico
Casado e mulher solteira,
Matuto e intelectual,
Ateu, moça rezadeira,
Na Net se pode tudo,
Até mudar de bandeira.Suruba em bate-papo,
Felação pela Web,
Passar chifre na mulher
Vendo as pernas da Hebe.
E que numa bebeu
Dessa água um dia bebe.Porém, o que mais existe
Nessa teia digital,
Nem é dados, nem é vírus
Por favor não leve a mal.
As pesquisas só apontam
Para o chifre virtual!De homem que trai mulher
Já passou de um tilhão,
E se for ver ao contrário,
A conta não muda não.
Quem me disse foi Bill Gates,
Eu não sei por que razão.Me falou que até hoje
A Microsoft lamenta
Não possuir um programa
Por mais coisa que inventa
Que compute a quantidade
Da coisa que só aumenta.É deste mundo moderno
Artimanha da conquista,
Passar chifre, leva chifre,
Virou uma ação bem quista,
Já que o bicho é virtual
E quase não deixa pista.(Este texto é pura ficção. Qualquer semelhança com fatos reais será mera coincidência)

Viagem
ao País dos Canindés

Ao mestre Helder Macedo

No meu tempo de garoto
Gostava de caminhar
Dentro da mata fechada,
Subir serra, acampar.
Olhar piaba no nado,
Ah, eu ficava encantado
Vendo a bichinha pular.

Sentir o aroma doce
Da seiva do mameleiro
O doce orvalho da manhã
Molhando meu corpo inteiro.
No rio, matar a sede
Depois armar minha rede
À sombra de um imbuzeiro.

Às vezes iam comigo
Um ou outro camarada.
Metia as bolsas nas costas
Saíamos de madrugada,
Com o sol encabulado.
Papai falava: Cuidado!
Mãe não dizia nada.

Em uma daquelas viagens
Partimos Ronaldo e eu
Lá para Serra do Acauã,
Pois era intento meu
Procurar naquela serra
Algum vestígio da guerra
Entre nativo e europeu.

Foi em mil e seiscentos
A ocasião dessa luta.
Dizem que foi tanto tiro
Que ainda hoje se escuta
O ecoar desses gritos
Da multidão de aflitos
Mortos pela disputa.

De um lado o Rei Janduí
Com seu povo aguerrido,
Do outro, muitos galegos
Um deles mais atrevido,
Saídos de um longe rincão
Atrás de um pedaço de chão
Por outro rei prometido.

Chegamos ao pé da serra
Envolvidos pela neblina,
Fomos cortando a mata,
Macambira, jurema fina.
E subindo a alta montanha
Cheia de coisa que arranha,
Como olhar de menina.

Um acauã cantou alto,
Levei um susto tremendo,
Olhei e vi numa moita
Um vulto aparecendo…
Era um homem desnudo,
Com um tacape pontudo,
E nós já fomos tremendo.

Ele levantou uma mão
E apontou um lugar,
Uma rachadura na pedra
Onde devíamos entrar.
Ronaldo ficou cismado,
Mas naquele estado
Não nos custava tentar.

Entramos e encontramos
Um sertão bem diferente
A caatinga verdejante…
Muita água em nossa frente.
Apareceram outros mais,
Sempre muitos cordiais
Conosco aquela gente.

Aquele homem primeiro
Que vimos lá na entrada
Falou que era Drarug,
Numa linguagem enrolada,
Que nomeado em tupi
Passou a ser Janduí,
Pela história contada.

Fiquei mais assustado
Pois pelo conhecimento
Janduí já era um velho
Desde o descobrimento.
Porém esqueci da idade
Quando avistei a cidade
Não tive outro pensamento.

Apresentou-me um irmão
Por nome de Canindé,
Que veio rindo: “Adriano,
Eu já sei quem você é,
Você não é filho de Rita,
Mora na Magnesita
Seu pai se chama José?!”

“Este deve ser Ronaldo,
Também Poeca chamado.
Filho de Mão de Onça,
Pedreiro velho afamado,
Casado com Terezinha,
Uma cabocla baixinha,
Mora do Parque Dourado.”

Fiquei mais espantado,
O peito pulou de repente,
Como é que ele sabia
Tanta coisa da gente?
Respondeu-me: “rapaz,
Pois muito tempo atrás
Os carregava na mente”.

“Queria muito que os dois
Viessem aqui algum dia,
Para saber da história,
Como ninguém poderia.
Pois todo livro que leio
Tem a mentira no meio,
Quem bem soubesse não lia.”

“Mas isso é coisa pra outrora,
É quase hora da festa,
Mandei buscar mais corpamba,
E tinta para sua testa…
Hoje é beber e dançar,
Amanhã vamos conversar
Naquela cabana ou nesta”.

A noite foi de alegria
Com música, riso e dança,
Nada tinha de selvagem
Aquela gente tão mansa,
Olhe que ainda namorei
Com a própria filha do Rei,
Agarrado na sua trança.

Ronaldo ficou foi zonzo
Por beber em demasia…
Não sabia mais de nada
Olhava para mim e ria…
Caiu em sono em segredo,
Porém acordou-se cedo
Porque a manhã veio fria.

Uma senhora aproximou-se
Nos trouxe água e comida,
Inhame, mel e farinha…
Caça recém-abatida.
Preparada com afeto,
E ficamos boquiaberto
Ante tamanha acolhida.

Perguntei para Janduí,
Querendo saber como é
Que se chamava o lugar
Qual estávamos de pé.
O rei me compreendeu,
Sendo assim respondeu:
“É o Pais de Canindé!”

“Após a guerra sangrenta
Nosso povo decidiu,
Se ocultar do seu mundo
Que quase o meu destruiu.
E desde então esta data
Nos embrenhamos na mata
Caboclo nunca nos viu.”

“Daqui às vezes observo
Quão dura a situação,
De quem vive em sua cidade
Carente de água e pão.
Foi pra isso aquela luta,
Feita de forma injusta,
Essa era a civilização?!”

“Eu achei muito esquisito
Quando um galego comprido
Chegou aqui me expulsando
Fazendo grande alarido…
Dizendo-se de além-mar
E eu teria que deixar
Santa mãe-terra corrido.”

“Eu disse, meu caro amigo,
Como é que poderei eu
Dar-lhe o que eu não tenho,
Nada disso é só meu…
A terra é minha senhora,
Se a quer, a ela implora
É um direito que é seu.”

“O galego me esculhambou
Saiu bufando, afobado.
Voltou com grande exército
Até os dentes armado…
Matou a todos que via…
Quem tinha perna corria,
Ainda prenderam um bocado.”

“Os demais pequei e trouxe
Para esta serra encantada,
Temos água e comida
E a roça toda plantada…
Digo verdadeiramente:
Não é como antigamente
Mas é melhor do que nada.”

“Para que ser colonizado,
Ser escravo do dinheiro?
Trabalhar pelo metal
Sem nunca tê-lo inteiro?
Ver um que tudo come
E tantos que passam fome
De janeiro a janeiro.”

“Me digam, vocês que vivem
Dentro da civilização!
Já viram aqui uma briga,
Irmão matando um irmão?
Filho chorando de dia
Com a barriga vazia,
Enquanto que o outro não?”

Ficamos sem atitude,
Diante da sabedoria
Do grande Rei Janduí,
Quase me escondia.
Foi aí que pensei mais
Se voltava para Currais
Ou se ali eu moraria.

Chamei Ronaldo num canto
E disse: Meu camarada,
O que é que você me diz,
Vai aceitar a morada?
Ele falou: “Posso não,
Pois não teria o perdão
De minha noiva amada”.

Entendi bem seu motivo
E decidimos partir
Para voltar noutro dia,
Se Janduí consentir;
Trazer a roupa, mobília
Gato, cachorro, família
E em seu país residir.

Pegamos o rumo de volta
À nossa velha cidade.
Deixando o peito vazio,
Comido pela saudade.
Mas já firmes no plano
De retornar para o ano
Àquela bela paisagem.
* * *

O Dia em que a Água acabou

A Bíblia Sagrada fala,
Nostradamus já sabia,
Os maias fizeram as contas,
Em dois mil e doze caía
A data do fim do mundo.
Eu duvidei, mas no fundo,
Boto fé na profecia.
***
Ela diz que o planeta
Vai acabar e assim
Tudo será consumido
Numa fogueira sem fim.
Neste calor de matar,
Alguém pra se adiantar
Pôs fogo no estopim.
***
Atente bem aos relatos
Vindos de mundo afora.
Depois que o chão esquentou,
Dona Água, sem demora,
Pegou carona num jato
E deste torrão tão ingrato
Deu no pé, foi-se embora.
***
Secaram o Rio Amazonas,
Paraná, Madeira e Juru,
São Francisco, Purus, Japurá,
Paraguai, Tocantins e Xingu.
Em Iguaçu não cai mais um fio
E até o Riacho do Navio
Não corre mais pro Pajeú.
***
Era uma vez Rio Nilo,
Mississipi, Rio Amarelo,
Volga, Sena e Danúbio,
Potengi, Açu, Rio Belo.
Quem estiver duvidando,
O Mar Vermelho cruzando
Não molha mais o chinelo.
***
Também secou por inteiro
Toda a água do mar.
Era navio encalhado,
Peixe morrendo sem ar,
Baleia se desesperando,
Indo parar em Orlando,
Batendo palma pra entrar.
***
Severino Boca Seca
Acordou de tardezinha
Com uma sede de lascar
Por causa da cachacinha,
Seu remédio contra mágoa,
Quis tomar um copo d’água,
Foi no pote e não tinha.
***
Na fazenda, Dona Zefa
Cedinho estava de pé,
Correu pra cozinha e foi
Coar um doce café.
Que a água tinha acabado,
Depois de tudo arrumado,
Foi que veio dar fé.
***
Um velho monge chinês,
Doido pra tomar chá,
Chamou o pupilo e disse:
“Meu filho, vá acolá.”
O menino saiu correndo,
Mas logo voltou dizendo:
“Meu mestre, água não há”.
***
Na Casa Branca também
havia um caos verdadeiro.
O presidente correu
Cagado pra o banheiro.
Sem água em seu lavabo
Teve que limpar o rabo
Num galho de marmeleiro.
***
A rainha da Inglaterra
Perdeu toda compostura.
Ao invés do chá das cinco,
Serviram-lhe pedra pura.
A velha fez cara feia
E se entalou com areia,
Findando na sepultura.
***
O imperador japonês
Após comer peixe cru,
Atum, tilápia e pescada,
Dourado e pirarucu.
Teve uma dor de barriga
E lhe ofereceram urtiga
Pra enxugar o baú.
***
O chanceler da Alemanha
Estava inconformado
Sem cerveja pra fazer
Parelha com seu guisado.
Subiu no alto Portão
Com uma corda na mão
Pra se matar enforcado.
***
Um sertanejo sabido,
Das bandas de Pernambuco,
Pôs no pilão xiquexique,
Bateu que saiu o suco.
Engarrafou pra vender,
Mas é o cabra beber
E ir ficando maluco.
***
Mané Fava preocupado
Procurava um curandeiro
Que desfizesse a praga
Jogada em seu terreiro.
Se fosse forte o poder
E começasse a chover,
Ele pagava em dinheiro.
***
Um pandeirista de fama,
Tocando em Cerro Corá,
Enlouqueceu, ficou nu,
Abriu a boca a berrar.
Saiu gritando na rua:
“Mamãe, eu vou pra lua
Beber a água de lá”.
***
Foi então que Sebastião,
Frequentador do lugar,
Botou a mão na cabeça
E começou a pensar
No bom empreendimento:
Fazendo o encanamento,
Trazia a água pra cá.
***
Foi na Bodega de Joca,
Comprou mil metros de cano,
Cola, suspiro e joelho
Pra o sucesso do plano.
Depois pediu que a NASA
Mandasse pra sua casa
Um foguete americano.
***
Enviaram-lhe um foguete
Da primeira geração,
Ainda movido a pólvora,
Parecido com um rojão.
Enquanto a nave voava,
O motorista ficava
Fechado em um caixão.
***
A nave subiu depressa
Com o estouro do paiol.
Sebastião admirado,
Olhando pro arrebol,
Enganchou no freio a bota,
A nave saiu da rota,
Indo parar no sol.
***
A Rússia ficou sabendo
Do Caso Sebastião.
Reuniu seus camaradas,
Montou sua expedição.
Lançou o Sputnik,
Porém levou um trambique
Que desmembrou a nação.
***
Lá nos Estados Unidos
Propuseram outra ação.
Mandaram foi um macaco
Com uma mangueira na mão.
A nave, que era preta,
Bateu de frente a um cometa,
Caindo no Cazaquistão.
***
Lula foi à televisão,
Feliz e achando graça.
“Companheiros do Brasil,
É só pegar uma taça
E vir aqui pra Brasília
Que hoje eu faço a partilha
Do meu barril de cachaça”.
***
Entretanto, não tinha jeito
Pra tanta sede no mundo
E a humanidade caiu
Num poço seco, sem fundo,
Pagando caro pela ação
Quem ontem gastou água em vão,
Agora padece imundo.
***
Passados dez dias de seca,
Aconteceu o inesperado.
Descrente orando pra Deus,
Santo caindo em pecado,
Judeu caçando nazista
E o Sul pedindo ao nortista
Um pouquinho só de aguado.
***
Como é triste o planeta
Em pleno estado de luto.
Onde existiam florestas
Não se vê mais um fruto.
Às vezes, me pego a vagar,
Procurando um só sabiá.
Pelejo, mas não escuto.
***
Ouço é o som da burrice,
Dos gritos roucos da terra,
Do homem matando o chão,
Tocando fogo na serra,
Enchendo o céu de fumaça,
Fazendo pra Deus ameaça,
À vida declarando guerra.
***
Eu vou parar por aqui.
Fica mais feio no fim.
Vá desculpando o poeta
Terminar esta prosa assim.
Minha língua está uma brasa.
Tem água na sua casa?
Vá ver um copo pra mim!

Adriano Santori, 2010.

* * *

A Triste Estória de uma Sabiá-una

Lá no fundo do sertão,
Na Ribeira do Acauã,
Existia um Bem-te-vi
Que cantava de manhã,
Tarde, noite e madrugada,
Procurando uma namorada
Para o seu ninho de lã.
***
Tocava frevo e maxixe,
Xote, xaxado e baião
Na sanfona e na viola
Bossa nova e samba-canção.
Dedilhava com maestria,
Mas um amor não aparecia,
Tinha triste o coração.
***
Fez versos para uma Rolinha
No alto da goiabeira,
Paquerou com a Tangará,
Tão pintadinha e faceira,
Foi à Pedra do Caju
Reconquistar uma Anu,
Mas levou outra carreira.
***
Foi então que um belo dia,
Num ganho de marmeleiro,
Encontrou uma Sabiá-una
Pedida, sem paradeiro.
Carente de fazer dó,
Com febre, tristonha e só,
Muita fome e sem poleiro.
***
Com sua melhor cantoria
Foi reanimando a donzela,
Entrou na mata, trouxe remédio,
Cuidou com carinho dela.
Não era a maior intenção,
Mas conquistou o coração
Da Sabiá-una tão bela.
***
Fizeram logo os planos
De se casarem um dia,
Era só a chuva voltar
Que o verde floresceria.
E foram arrumando o ninho,
Comprando devagarzinho
Cama, mesa e tapeçaria.
***
O Bem-te-vi muito contente
Enfim era um ser feliz…
Escreveu o nome dos dois
Na imburana com giz
E a ela deu de presente
Um quadro muito decente,
Pintado por um concriz.
***
Um cuidava bem do outro,
Com muita dedicação,
Fazendo tudo em conjunto,
Zelando pela união.
Às vezes, alguém brigava,
Porém, o amor espantava
A sombra da separação.
***
Um desejo da Sabiá
Era ligeiro atendido.
O Bem-te-vi queria ser
Bom pássaro, pai e marido.
Pra que outra atitude,
Se ele lembrava amiúde
O quanto havia sofrido?
***
Numa dessas da vida,
Quando voltava pra casa,
Fugindo do gavião,
Fez uma descida rasa.
Perdeu a mira certeira,
Chocando-se na aroeira,
Quebrou a junta da asa.
***
Passou mais de mês doente,
Não podendo realizar
Os desejos da pequenina
E tão vaidosa Sabiá,
Que tola, não entendia
Como o coitado sofria
Por ser difícil voar.
***
Assim as trevas do mundo
Pararam naquele sertão
E a Sabiá foi embora
Sem qualquer explicação,
Largando o passarinho
Na terra escura, sozinho,
Infeliz e dizendo: Não!
***
O Bem-te-vi ficou louco
Com o desaparecimento.
Perguntou pra o Preá,
Pra Araruna e pro Jumento,
Pra Craúna e pro Potó,
Pra Nambu e pro Mocó,
Moradores do São Bento.
***
Por perto ninguém sabia
Onde estava a Sabiá.
Sendo assim o Bem-te-vi
Correu mundo a procurar,
Com a missão decidida:
Nem que lhe custasse a vida
Ele a iria encontrar.
***
Procurou na baraúna,
Cajueiros e coqueirais,
Riacho, açude e vazante,
Rio grande e manguezais.
Falou com as juritis,
Borboletas e colibris,
Tatu-peba e tantos mais.
***
Arriscou-se com a Raposa,
Lhe expulsou o Pavão,
Foi picado pela abelha,
Beliscado pelo Cancão
E se eu não lhe avisava,
O curioso quase virava
Da Pintada, a refeição.
***
Passou mais de um ano,
Dia e noite procurando.
Até que no fim da viagem
Aos poucos foi escutando
O canto familiar
Da pretinha Sabiá
Por outro nome chamando.
***
Voou com todas as forças
Seguindo na direção.
Quando parou de repente
Ao ter a grave visão
De estar feliz seu tesouro,
Numa gaiola de ouro,
Deitadinha num colchão.
***
A Sabiá mais parecia
Figura da realeza.
Toda coberta de jóias,
Vestida tal qual princesa.
Rubis na porta de entrada
E ainda mais perfumada
Com alfazema francesa.
***
Ali era a propriedade
De um rico fazendeiro,
Criador de bois e cabras,
Dono de muito dinheiro,
Que não tendo o que fazer,
Corria o mundo a prende
Pássaros no seu terreiro.
***
Em cima de uma jaqueira
O Bem-te-vi se escondeu,
Justamente no momento
Que tal homem apareceu
E a tirou da prisão,
Pondo a bela na mão,
Solta no dedo seu.
***
A Sabiá cantarolava
Para o carrasco, contente,
Exibindo o seu penacho,
Pensando que era gente,
Sem saber que por perto
Existia um peito aberto,
Pela traição, doente.
***
Choroso e cheio de mágoa,
O Bem-te-vi foi ao chão,
Sentindo o duro pesar
Da sua busca em vão.
Clamando então pela morte
Daquele moço sem sorte,
Sem amor, sem violão.
***
Em extremo desespero,
Perdeu o rumo da vida,
Bateu asas do sertão,
Entrou fundo na bebida.
Perdeu tudo o que tinha,
Inclusive a casinha
Feita para prometida.
***
Mas só existe uma treva
Que a luz do sol não espanta:
É se achar por vencido,
Entregar-se de corpo a lança,
Pois quando a guerra ocorre
A última pessoa que morre
É a bendita esperança.
***
E na vida do passarinho
Apareceu novo amor.
Uma linda Bem-te-vi,
Com a qual logo casou,
Indo morar bem juntinho
À beira dum riachinho,
Na Serra do Mirador.
***
Igual sorte não teve
A Sabiá do começo,
Comida pelo remorso
Da atitude sem preço.
Seu luxo um dia acabou,
Pois o fazendeiro a largou,
Deixando-a sem endereço.
***
Vagou aqui e ali
Na intenção de rever
Seu primeiro namorado
E, se o perdão merecer,
Ser por ele perdoada
E ir seguindo a estrada
Junto dele até morrer.
***
O desalento pousou manso
Como uma nuvem invisível,
Quando a Coruja contou
A ela o fato terrível:
Ele seguiu seu caminho,
Já tem até um filhinho.
Tê-lo seria impossível.
***
A Sabiá saiu em pranto,
Olhou para o alto céu,
Com o peito dilacerado
Pelo imperdoável papel.
Depois que fez a besteira
Se atirou de primeira
No bote da cascavel.
***
Aqui termina essa estória,
Agradeço pela atenção.
Uns dizem que é inventada,
Outros reclamam que não.
Que dera fosse visagem
De um criador de imagem,
Poeta deste sertão.

Adriano Santori, fevereiro de 2010.

* * *

A Chegada de Severino Boca Seca às Abas do Paraíso

“Finado Severino/quando passares em Jordão/e os demônios lhe atalharem/perguntando
o que é que levas…
Dize que levas somente/ coisa de não: fome, sede, privação.”
João Cabral de Melo Neto

Severino Boca Seca,
Cachaceiro viciado,
Que nada teve na vida,
Só cruz, cruzeiro e cruzado…
Vendo, Deus, seu sofrimento
Quis levá-lo num jumento
Para ser santificado.
***
Na bodega chegou cedo,
Pediu cachaça do Sul,
Tomou só uma lapada,
Na boca pôs um imbu.
Era final de agosto,
Morreu entre o tira-gosto
E dois dedos de Pitú.
***
Naquela manhã de sexta,
Me lembro com precisão,
No céu se abriu uma fenda
Mesmo em cima do Sertão.
Quem estava por perto viu
Quando seu corpo subiu
Tombando na condução.
***

Chegando assim nas Alturas
Levou um susto tremendo.
Ele não podia acreditar
Naquilo que estava vendo:
Os santos todos pulando,
Bebendo e se esbaldando
E a concertina comendo.
***
Tinha um santo na zabumba,
Outro triângulo tocando,
Santo dançando com santa,
Santa e Santo se beijando.
Era a procissão mais bela,
O forró dando na canela,
Noite e dia assim virando.
***
Do outro lado ainda havia
Uma roda bem diferente.
O samba falando alto,
Treze baianas na frente
Que enquanto pagodeavam
Três anjos inauguravam
Duas fontes de aguardente.
***
Na nuvem do lado estavam
Os campeões do repente,
Merecedores da Graça
De forma mais comovente:
Duelando na cantoria
Pra Santa Virgem Maria
Lhes dar a paga decente.
***
São Boca Seca estranhou
Em muito a situação.
Ao invés da coisa parada
Forró, festa e animação.
Nada disso condizia
Com que o Padre Pedro dizia
Nas curvas do seu sermão.
***
“Valei-me, Frei Damião!
Então aqui assim é?!
Ah, se eu soubesse antes
Já tinha morrido na fé.
Vinha nas asas do vento
Com um pouco de investimento
Botar aqui um morre-em-pé!”
***
O bêbado se aproximou
Daquelas fontes de pinga,
Banhou-se de todo corpo
Para tirar a catinga.
Sua alma era pequena,
Mas a imundice terrena
Fedia como a mulinga.
***
Seu corpo purificado
Flutuou em pleno salão,
Sendo teletransportado
Sob a forma de clarão
A um canto preparado,
Sendo então canonizado
Nas leis da religião.
***
Do infinito surgiu a voz:
“Meu filho, vou lhe falar…
Tu fostes santificado
E eternamente será
O protetor estimado
Dos bêbados de pé rachado
E dos boêmios sem lar.”
***
“Da pinga daqui do Céu
Tu não poderás beber,
Mas toda que há na Terra
Está sob o teu poder,
Pois aqui se faz assim:
Recebem todos no fim
O agrado que merecer.”
***
“E cada que vez que um deles
Der uma dose pra o santo,
Quem beberá serás tu
Ouvindo assim o seu pranto.
Também serás condutor
Do embriagado senhor
Procurador do seu canto.”
***
Porém Deus não imaginava
Como seria dura a missão,
Nem Ele sabia ao certo,
Depois disse em confissão,
Que nem de longe contava,
Presumia ou estimava
Os fiéis dessa religião.
***
E a cada dose na Terra
Boca Seca se animava,
Ria chamando atenção,
Aos poucos se escorava
Por cima de uma mesa
No bar de Dona Tereza,
Madrinha de Chico Fava.
***
Adormeceu e logo mais
Sonhou com o velho Sertão,
Com a seca comendo o povo,
Com o pobre seco sem pão,
Com a grande chibata escura
Que dia-a-dia tortura
O lombo dessa nação.
***
Enquanto que aqui no Céu
Era só divertimento,
Na Terra, a impunidade,
Fome, seca e sofrimento
Tornavam o homem, bicho,
Faziam do luxo, lixo,
Lembrança em esquecimento.
***
Acordou enfurecido
Bravo feito Jararaca,
Vestiu o chapéu de couro
Amolou na testa uma faca
E a partir daquele momento
Não tinha no firmamento
Quem lhe calasse a matraca.
***
Disse ser um absurdo
Tamanha depravação.
Em um meteu foi o braço,
Outro, chamou de ladrão,
Furou dois no espinhaço
E também tirou um cabaço,
Mas isso é outra questão.
***
Tentaram em vão segurá-lo
Para meter-lhe a peia,
Só que o Santo embriagado
Tinha veneno na veia…
Era a peixeira comendo,
O rio de sangue escorrendo,
Sujando a tapera alheia.
***
Chamou José de Genésio,
Desmantelou a taverna,
E quem entrava na briga
Saía sem braço e sem perna.
No ato mais tenebroso
Apontou como sendo Trancoso
O dono da Verdade Eterna.
***
No momento derradeiro
Quando o sol escureceu
Boca Seca endiabrado
A faca no Céu meteu.
Rezaram para Santa Luzia
Porque a vista não podia
Crer no que aconteceu.
***
Todo tesouro de cima
Foi ao chão com certeza.
Chuva de pão, não cachaça,
Caiu então na pobreza.
Digo verdadeiramente
Que desse dia pra frente
O mundo ficou uma beleza.
***
As riquezas divididas
Por igual com as nações.
Cada um com sua parte,
Sem bandidos ou charlatões
E nem políticos de agora
Que só põem os pés pra fora
Na época das eleições.
***
Entretanto, se por ventura
Alguém quiser degustar
De algo assim diferente
Não tem que se preocupar.
Peça a São Severino
Pois esse bom nordestino
Não há porque lhe negar.
***
Mas peça com devoção,
Reze uma prece bacana,
Acenda duas ou três velas,
São Boca Seca não engana,
Só não tolera ofensa,
Nem tão pouco dispensa
Uma boa dose de cana.

Adriano Santori, 2002.

* * *

Dos preconceitos

“Quem inventou o preconceito
Com o negro por causa da cor
Por certo sequer estudou
Na escola a escala cromática.
Pois desde a velha Escolástica 
O mundo já tinha ciência:
No “branco” estão todas as cores
No “preto” é delas a ausência,
Newton mostrou para eu ver.
Se for para falar sem saber,
Rapaz, tenha santa paciência!

Já quem se diz superior
Devido a religião,
Na certa se acha o mais são,
sabedor da verdade mais pura.
Pois cada um tem sua cultura,
Cada qual crer no que quer,
Seja Deus um homem ou mulher,
Ou não tenha esse ser existência
Física ou de fluídica essência,
Ou precise de oração pra viver…
Se só criticar sem saber,
Rapaz, tenha santa paciência!

Infância – Adriano Santori

A vida já fora um dia
Doce como a rapadura.
Saudades me vêm agora
De uma infância tão pura,
Quando éramos felizes
Sem precisar de frescura.

Bastava uma bola de meia

Que a mão materna fazia,
Ou um carrinho de lata,
Que pai da feira trazia
Para fazer a brincadeira
Durar por mais de um dia.Rapar o chão com a chinela
E desenhar uma estrada.
Se intitular construtor
Fazer um tudo de um nada…
Ser cientista ou doutor,
Sorrir sem hora marcada.Correr, cair no terreiro
Chegar com o joelho ferido…
Enredar as coisas à mãe
Depois de puxar no vestido.
Ter como única tristeza
Chorar o brinquedo perdido.Andar na corcunda do pai
Agarrado pela mãozinha,
Ou torná-lo uma montaria
Andar pela casa todinha
Querendo ser um vaqueiro
Ou só por pirraça minha.Ter medo da cuviana,
Pensar ser ela um bicho,
Furar o pé por pisar
Descalço num carrapicho,
E num golpe de karatê
Derrubar o tambor lixo.Assistir desenho animado
Numa TV preto e branco,
Correr pelado no bairro,
Andar imitando um manco…
E naqueles dias difíceis
Enfrentar a mãe e o tamanco.Ter a piroca mexida
E dela tirada um torrado.
Dormir com catinga de mijo
Depois de ter se mijado,
E pela preguiça de ter
Que ter o colchão virado.Os dedos cheios de verrugas
Por ter estrela apontado,
E por comer bolo quente
Ficar com o bucho inchado.
Isso tudo são quadros
Do filme desse passado.Porém, o tempo vilão
Me fez crescer de repente
Acabando com meu sossego
Os sonhos que tinha em mente,
E a cada dia eu pareço
Com menos jeito gente.Num corre-corre infeliz
Suando por um tostão,
Se gasto um real na leitura
Me falta na hora do pão.
Sou a antítese do ditado:
“Mente sã em corpo são”.(P. S: Fui falar em rapadura, me veio isso na mente; precisando ainda de melhoramentos)

Do fim das paixões… (Nirvana)

Hoje meu corpo caiu trôpego no Potengi
Que nasce lá em cima da serra…
Moeu minha carne, fez de mim migalhas,
Atirou meu ser contra as pedras,
Tornou-me grão de areia.
Finalmente lavou minha alma!
E eu que era simples  gota d’água,
Que enxergava o mundo e a vida
Como coisas tão minúsculas
Fui crescendo e tomando fôlego
Tal qual criança conhecendo o ar…
E como é destino de todo rio
Renasci, maravilhosamente leve
Na forma imensa e pura de mar.

15 de maio de 2011.

10 pensamentos sobre “Algumas Palavras

  1. Lindo… Lindo… O passado nunca bate à porta,
    Isso quem faz é o presente. Vou colar para colocar no orkut esse trechinho rsrsrsrssrsrsr

  2. Que poesia bela!
    A Sabiá e o Gavião.

    Uma sabiazinha tão bela
    Do outro lado do sertão,
    Vivia tranquila da vida,
    Sem perceber a ação:
    E era assim vigiada
    A presa mais desejada
    Dos olhos dum gavião….

    É um grande prestigio ser protegida por um GAVIÂO.
    Sucessos sempre! Grande Adriano Santori.

  3. Parabéns, Santori! Que Deus continue iluminado você, para continuar levando a boa musica brasileira!

    • A maior luz que Deus poe em nossas vidas são os amigos! Esses sempre nos orientam e nos fazem enxergar o clarão no fim dos caminhos. Obrigado, pela presença ontem e forte abraço para esse casal. Sucesso sempre!

  4. Sou suspeita para falar de uma pessoa que já mora no meu coração de graça. Santori, você é um abençoado por Deus com tantos talentos. Louve a Deus por tudo isso. Que Ele continue sendo sua inspiração de todos os dias. bju!

  5. Santori, Parabens pela poesia “do fim das paixões”, muito lindo mesmo, toca o coração…

    Desejo que Deus abençoe,sempre, esse dom que vc tem. um abraço!

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